sucessão familiar

O futuro da fazenda: sucessão familiar em uma empresa rural

A estrutura de empresa familiar é muito comum no agronegócio brasileiro. Para evitar danos patrimoniais e emocionais na hora de transferir a gestão para as próximas gerações, é fundamental desenvolver um plano para a sucessão familiar na agricultura adequado ao modelo de negócios da organização.

Uma sucessão familiar bem-sucedida é o resultado de um bom planejamento feito com bastante antecedência. Esse processo leva tempo e dedicação, além da determinação em fazer acontecer. Quando essa questão é negligenciada, a sucessão acontece em meio a conflitos e despreparo, o que pode ser devastador não apenas para o negócio, mas para as relações familiares.

Neste artigo, explicamos como funciona a sucessão familiar na agricultura, quais são os maiores desafios enfrentados e as melhores dicas para preparar os herdeiros e fazer a passagem de bastão entre as gerações. Boa leitura!

Quais são os principais obstáculos da sucessão familiar?

Em uma empresa familiar, o controle está centralizado nas mãos de uma mesma família e é transmitido de forma hereditária. Isso significa que, quando se ausentam, os pais passam o bastão para os filhos, que devem assumir responsabilidades de acionistas e muitas vezes gestores da companhia.

Segundo dados do IBGE, apenas 30% das empresas familiares chegam na segunda geração, e só 5% conseguem resistir até a terceira. Isso significa que, na maior parte das vezes, os herdeiros não estão preparados para tomar frente dos negócios e assumir os cargos de gestão da empresa familiar. Por quê? Considere alguns desafios.

Falta de interesse dos jovens

Muitos jovens que nascem no âmbito rural e que crescem com suas famílias trabalhando no campo ficam desestimulados a continuar com as atividades agrícolas e acabam migrando para as grandes cidades em busca outras alternativas. Isso é muito comum quando:

  • não há boa comunicação entre pais e filhos;
  • há divergências de objetivos de negócios entre o atual administrador e o herdeiro;
  • é grande a distância entre a cidade e o campo;
  • os recursos para prosseguir com o negócio são limitados;
  • o herdeiro não sabe como gerir a propriedade;
  • o sucessor tem uma família muito grande;
  • o herdeiro deseja melhores condições de trabalho ou financeiras;
  • não há tecnologias disponíveis na fazenda.

Assim, esses desafios enfrentados no trabalho nas propriedades desanimam os jovens e herdeiros, fazendo com que a atividade agrícola deixe de ser interessante para eles. Um estudo realizado na Universidade Federal da Fronteira Sul, no curso de Agronomia, listou alguns dos principais desafios e problemas mais relevantes, como mão de obra e falta de comunicação.

Despreparo dos herdeiros

Muitas vezes os herdeiros da propriedade rural não têm preparo para tomar conta da lavoura e, quando o fundador se ausenta, tomam decisões erradas, que culminam na falência do negócio.

Esse despreparo pode vir tanto pelo desinteresse quanto pelo perfil que não se encaixa no negócio. Em ambos os casos, o bom planejamento familiar pode simplificar o desafio de passar o bastão.

Rivalidades e conflitos de interesses

Conflitos de interesse sobre a herança resultam em desgastes de relacionamento e danos emocionais irreparáveis na relação entre os familiares. Assim, conciliar interesses pessoais e os interesses do negócio é uma habilidade difícil de desenvolver.

Esse é um problema que em nada ajuda a empresa. Se já houver divergências no lar, isso se intensifica no negócio, fazendo com que decisões importantes fiquem travadas. No entanto, os valores familiares próprios do agronegócio são uma das suas principais vantagens competitivas. 

Quando superadas as diferenças, o potencial de crescimento é muito grande. Somente a boa comunicação e o tempo vão resolver tais rivalidades.

Resistência do patriarca

Não são tão raras as situações em que o administrador atual não quer abrir mão do comando da propriedade e resiste em passar o bastão para as novas gerações.

Isso geralmente ocorre porque o patriarca teme perder o poder e sua identidade como fundador e líder. Esse problema levanta um grande obstáculo ao crescimento. 

Digamos que ocorra um imprevisto com o administrador e ele fique incapaz de tomar as rédeas do negócio. A empresa perderá um bom tempo buscando caminhos para prosseguir as suas atividades.

Diferenças culturais

Se compararmos as diferentes gerações que compõem a agricultura familiar, perceberemos que as questões culturais entre as novas gerações e os seus pais são muito maiores do que entre pais e avós. Isso justifica o fato de, hoje, a transição ser tão preocupante — algo que décadas atrás era tão natural.

Mesmo quando jovens chegam com novidades ao campo para aprimorar as operações, pode haver certa resistência do patriarca em realizar novos investimentos. A sucessão familiar exige que todos falem a mesma língua.

Por que começar a criar um plano de sucessão familiar na agricultura desde já?

Um planejamento sólido e a boa comunicação são o segredo para vencer os desafios comentados e reduzir as chances de problemas. Essas devem ser ações constantes e sólidas para garantir que os herdeiros estejam preparados para assumir as suas responsabilidades e deem continuidade aos negócios da família.

Nem sempre um herdeiro terá vocação ou interesse em assumir a lavoura. Isso é especialmente comum quando a segunda geração se afasta do campo e se estabelece em outras áreas.

Mesmo nesses casos, é importante que o herdeiro tenha a consciência de que a propriedade rural será a sua um dia, e que para isso acontecer, ele deve estar no mínimo preparado para assumir o papel de acionista do negócio. Esse preparo muitas vezes leva tempo.

Como preparar os herdeiros para assumir o negócio?

Idealmente, o processo de sucessão familiar leva tempo. É importante formar herdeiros e definir regras e responsabilidades com muita antecedência, especialmente em famílias maiores.

O primeiro passo para essa jornada é o autoconhecimento. Os herdeiros devem fazer um trabalho vocacional para ver em qual papel se encaixam melhor na empresa. A vontade de assumir a liderança ou o operacional nem sempre despertará em todos os filhos de empresários do agronegócio, o que é comum.

Alguns vão se sentir mais à vontade assumindo a lavoura, enquanto outros vão preferir o papel de acionistas ao mesmo tempo que seguem carreiras paralelas.

Os que já estão decididos em participar da gestão da empresa devem começar a investir na sua formação, com cursos de agronomia, administração e outros estudos que poderão contribuir para o futuro da lavoura.

Depois disso, é recomendável que os herdeiros busquem também experiências fora do negócio familiar. Não existe uma receita para essa etapa e há muitos casos de filhos que, depois da faculdade, foram diretamente para a empresa familiar e tiveram sucesso.

A possibilidade de trabalhar em outras propriedades e desenvolver a sua própria identidade profissional sem a pressão do sobrenome pode ser excelente para a formação de um futuro gestor, que quando assumir um cargo no negócio familiar, já terá uma autoridade técnica na área e mais segurança para liderar.

Quando chegar esse momento, é interessante que a nova geração tenha uma relação harmoniosa com a anterior e trabalhe junto pelo máximo de tempo possível.

Como dito, muitas vezes as inovações trazidas pelos herdeiros entram em conflito com a experiência da geração atual. No entanto, se essa relação for bem trabalhada, é possível extrair o melhor de ambos e colaborar para o progresso da lavoura. 

Conheça as melhores práticas para garantir que essa transição seja natural e bem-sucedida.

Como fazer a sucessão familiar da melhor forma?

Na maior parte das vezes, o processo de sucessão familiar pode ser um pouco longo. Por isso, o planejamento é essencial. Para que ocorra da melhor forma, é necessário entender as etapas.

Levante todos os dados da fazenda

Para iniciar com o plano de sucessão, é necessário ter informações completas sobre o negócio, que englobam:

  • rentabilidade;
  • área total cultivada;
  • área reservada à proteção ambiental;
  • maquinário;
  • histórico da lavoura e safras;
  • imóveis;
  • documentos legais;
  • custos totais da proteção;
  • mapeamento de processos;
  • fornecedores;
  • técnicas e métodos empregados.

A ideia é que o sucessor ou os sucessores tenham em mãos todos os dados necessários para entender como o negócio funciona. Para isso, tudo deve estar registrado, organizado e acessível. Esses serão insumos fundamentais para o herdeiro usar em futuras decisões para a lavoura.

Identifique o sucessor

A escolha do sucessor é uma decisão de grande relevância. No caso de vários herdeiros, há de se delegar funções dentro do negócio. Essa decisão não deve partir de fatores emocionais. Em virtude disso, é recomendado contar com alguém de fora do seio familiar — talvez um profissional especialista — para realizar essa análise.

Ao longo desse processo, é possível enxergar qual herdeiro tem mais facilidade para gerenciar o negócio da família, e os ajustes podem ser feitos. A ideia é que o plano seja flexível, e que novos rumos possam ser tomados conforme as necessidades.

Envolva toda a família

Fazer um plano de sucessão sem compartilhar as decisões com a família pode ser motivo de discórdia mais tarde. Ao discutir com os futuros herdeiros sobre o negócio, talvez você descubra que nem todos desejam estar envolvidos no negócio. 

Pode ser que chegue-se à conclusão de que os filhos desejam seguir os seus próprios negócios ou carreiras paralelas, e que a empresa familiar precisa estar nas mãos de um profissional contratado — o que geralmente ocorre em grandes empresas.

Algumas famílias têm a ideia de dividir as terras. Isso por si só já elimina o processo de sucessão familiar, já que cada herdeiro vai gerenciar as suas propriedades de forma individual. No entanto, cada um terá uma porção reduzida, perdendo força competitiva no mercado. O resultado é que provavelmente nenhum dos negócios sobreviverá.

Existem algumas estratégias que podem motivar o interesse dos mais jovens a atuar no negócio.

Invista em tecnologia

O agronegócio hoje está cada vez mais tecnológico. Assim, a realidade do trabalho rural se modificou bastante nos últimos anos. A roça se tornou o lugar de pesquisa, investimentos e adoção das mais modernas ferramentas digitais. É necessário ter qualificação para se manter no campo, e esses herdeiros podem contribuir para isso.

Além disso, softwares de gestão para a agricultura serão úteis para padronizar e gerenciar os dados do negócio. A agricultura de precisão também trouxe inúmeras técnicas e instrumentos que garantem melhores resultados na lavoura, como mapeamento de fertilidade, GPS, sensoriamento remoto etc.

Essas tecnologias tornam o agronegócio ainda mais atrativo para os herdeiros, facilitando o processo de sucessão familiar.

O que não pode faltar ao pensar no futuro da sua lavoura?

A primeira decisão que deve ser tomada por uma empresa familiar no agronegócio é a seguinte avaliação: se ela continuará sendo familiar e será transmitida para as próximas gerações ou se o seu controle acionário passará para terceiros.

Se a decisão for continuar sendo eminentemente familiar, é decisivo trabalhar a sucessão. Para que a transferência do controle seja tranquila e bem-sucedida, é fundamental que exista um protocolo familiar, definindo as regras de como o herdeiro pode entrar na empresa, como será a divisão do controle acionário e a definição dos líderes e representantes.

Como esse é um processo que pode envolver muitas emoções e egos dentro da família, o que não pode faltar é uma auditoria ou consultoria externa para essa etapa. Um mediador que não está emocionalmente envolvido com a família terá uma posição bem mais imparcial e profissional, facilitando essas conversas e definições.

Uma opção é contratar gestores externos para assumir os papéis da gestão da empresa, enquanto os herdeiros seguem como proprietários, acionistas e conselheiros, acompanhando o trabalho de perto.

Quando não existe acordo de sucessão familiar na agricultura, muitas vezes a propriedade acaba dividida entre os herdeiros que, por falta de interesse ou despreparo, vendem a terra ou quebram a empresa.

Se já existe um profissionalismo na gestão desde a primeira geração, as chances de que esse tipo de desfecho aconteça são drasticamente reduzidas. Portanto, é uma responsabilidade da gestão atual de uma empresa familiar começar a trabalhar a sua sucessão, assegurando que o negócio continuará mesmo quando a primeira geração decidir se aposentar ou se ausentar.

Agora que você já sabe mais sobre a importância da sucessão familiar na agricultura e como esse processo deve ser feito, aproveite para se preparar ainda mais para o futuro conhecendo 8 apostas para o mercado agrícola até 2020!

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