Agricultura de Precisão: o que considerar antes de investir
Resumo:
Este artigo apresenta os principais fatores que precisam ser considerados na adoção da Agricultura de Precisão, desde equipamentos e coleta de dados até softwares, manutenção, conectividade e capacitação da equipe. Também discute por que o investimento e o retorno variam conforme a cultura, o tamanho da propriedade, a tecnologia utilizada e a capacidade de transformar dados em decisões de manejo, além de trazer estudos de caso que discutem se vale mesmo a pena investir ou não em AP.
Principais pontos:
- Retorno sobre investimento na Agricultura de Precisão
- Ferramentas que podem compor o arsenal da Agricultura de Precisão
- Quais os custos recorrentes com a Agricultura de Precisão?
- Vale a pena investir em Agricultura de Precisão?
As perguntas mais frequentes sobre Agricultura de Precisão giram em torno de “a Agricultura de Precisão realmente funciona?”, “quanto devolve para o bolso do produtor por hectare?”.
Ainda: “AP gera retorno do investimento em quanto tempo?”, “reduz custo?”.
Realmente quando o assunto é investir em novas tecnologias e equipamentos, o produtor precisa pesquisar muito.
Primeiro, colocando no papel suas reais necessidades, suas possibilidades financeiras e de equipe e quais ferramentas ajudariam a alcançar determinado resultado.
O impacto econômico da Agricultura de Precisão varia de acordo com a cultura, tamanho da propriedade, nível de variabilidade da área, equipamentos que o produtor utiliza, qualidade dos mapas, capacidade da equipe em executar as tarefas e o empenho no manejo das áreas.
Simplesmente contratar telemetria, mapas, piloto automático e achar que a combinação das tecnologias vai aumentar produtividade e diminuir desperdício de insumos, não funciona.
Retorno sobre investimento na Agricultura de Precisão
A AP nem sempre vai reduzir o custo da produção agrícola de forma imediata. Muitas vezes, o investimento nos equipamentos e tecnologias serão altos, o tempo de treinamento da equipe será longo e o retorno pode levar algumas safras.
Porém, na maioria das fazendas, os primeiros resultados aparecem na diminuição no uso de corretivos, na melhoria da fertilidade do solo, na eliminação da sobreposição de aplicações e no ajuste de sementes por área.
Ou seja, o custo da adoção da Agricultura de Precisão é redistribuído para melhorar a eficiência produtiva, sendo que, inicialmente, o ganho pode vir mais da produtividade em si, do que do retorno sob o investimento.
Ferramentas que podem compor o arsenal da Agricultura de Precisão
Na Agricultura de Precisão diferentes ferramentas podem ser combinadas para coletar dados, orientar operações e aplicar insumos de acordo com a variabilidade da lavoura.
Entre algumas das soluções estão:
- Sistemas de orientação e barra de luzes: auxiliam na navegação e no paralelismo das operações.
- Piloto automático: automatiza a condução da máquina, mantendo o trajeto definido pelo sistema de orientação.
- Controle de seções e bico a bico: gerencia a aplicação por partes da máquina, reduzindo sobreposições.
- Taxa variável: permite ajustar a quantidade de sementes, fertilizantes ou defensivos conforme mapas e informações da área.
- Tecnologia PWM: possibilita controlar a aplicação de forma mais precisa, inclusive diante de variações na velocidade da máquina.
- Sensores e aplicação localizada: identificam características ou alvos específicos da lavoura para direcionar intervenções.
- Drones agrícolas: fornecem imagens e dados para monitoramento e identificação de diferenças dentro da área.
- Telemetria: reúne informações sobre máquinas e operações para acompanhamento e análise do desempenho.
- Mapas de produtividade e amostragem georreferenciada: ajudam a identificar a variabilidade espacial da lavoura e orientar decisões de manejo.
Se quiser mais detalhe sobre cada tecnologia, veja também:
Nem todas essas tecnologias precisam ser adquiridas juntas. O investimento em Agricultura de Precisão pode começar por uma ou mais ferramentas e evoluir conforme os objetivos da produção.
Quais os custos recorrentes com a Agricultura de Precisão?
O investimento em AP não termina com a aquisição dos equipamentos. Depois da implementação, a operação envolve despesas recorrentes relacionadas à coleta, processamento, atualização e utilização dos dados.
Amostragem e análises de solo
Esse é um investimento que já faz parte da rotina de muitas propriedades, independente se utilizam AP ou não. Entretanto, talvez é necessário mudar a estratégia de amostragem, a quantidade de informações coletadas e a forma de utilização dos resultados.
A Agricultura de Precisão depende de informações detalhadas sobre a variabilidade da área. Por isso, a coleta de amostras georreferenciadas e as análises laboratoriais devem fazer parte da rotina operacional.
Geração e atualização de mapas
Mapas de fertilidade, produtividade, condutividade elétrica do solo e outras informações espaciais precisam ser gerados, processados e, em alguns casos, atualizados ao longo das safras.
Esse processo pode envolver software, processamento de dados, serviços especializados e mão de obra capacitada.
Softwares e plataformas
Outra despesa recorrente pode estar relacionada às plataformas utilizadas para:
- armazenar dados;
- organizar informações georreferenciadas;
- elaborar mapas;
- gerar recomendações;
- acompanhar operações;
- integrar diferentes fontes de informação.
Quanto maior a quantidade de tecnologias utilizadas, maior tende a ser também a necessidade de integração entre sistemas.
Consultoria e interpretação dos dados
Coletar dados não é suficiente. É necessário transformá-los em informações que possam orientar decisões agronômicas e operacionais.
Por isso, dependendo da estrutura da propriedade, podem existir custos com consultoria agronômica, especialistas em geoprocessamento ou profissionais responsáveis pela análise e interpretação dos dados.
Manutenção e atualização dos equipamentos
Receptores, monitores, controladores, sensores e outros componentes estão sujeitos a manutenção, calibração, substituição de peças e atualizações de software..
Além disso, a evolução tecnológica pode exigir a atualização ou substituição de equipamentos para manter a compatibilidade entre máquinas e sistemas.
Conectividade e transmissão de dados
Em operações conectadas, também podem existir despesas relacionadas à comunicação e transmissão dos dados, especialmente quando as informações precisam ser enviadas entre máquinas, plataformas e escritórios.
A necessidade de conectividade varia conforme a tecnologia utilizada e a infraestrutura disponível na propriedade.
Capacitação da equipe
A operação também envolve um componente que muitas vezes não aparece na cotação dos equipamentos: as pessoas.
Operadores, gestores e profissionais responsáveis pelo manejo precisam saber utilizar os sistemas, interpretar informações e incorporá-las à rotina da fazenda.
Assim, treinamentos e capacitações podem fazer parte do custo operacional da Agricultura de Precisão.
Em resumo, o custo de operação com AP resulta da combinação entre coleta de dados, tecnologia, serviços, manutenção e capacidade da equipe de transformar informações em decisões.
Vale a pena investir em Agricultura de Precisão?
Mesmo depois de todo esse levantamento de necessidades, tecnologias e equipamentos, ainda sim vale a pena investir em AP?
Estudo publicado na Revista de Política Agrícola, comparou os custos de produção de soja convencional e com agricultura de precisão em uma região do Mato Grosso do Sul.
O sistema que utilizou AP apresentou custo operacional total cerca de 14% maior por hectare. Entretanto, a diferença praticamente desapareceu quando o custo foi analisado por saca produzida, devido ao aumento de produtividade.
Artigo publicado pela Revista Ambientale, da Universidade Estadual de Alagoas, afirma que resultados consistentes com o uso de Agricultura de Precisão dependem do ciclo completo de dados: coleta georreferenciada, processamento, geração de mapas, aplicação em taxa variável e avaliação por indicadores.
O artigo conclui que a adoção bem sucedida exige implementação gradual, metas mensuráveis e adequação ao porte do produtor.
Ou seja, as tecnologias de AP ampliam o monitoramento e a eficiência operacional, mas são as tecnologias de agricultura digital que ajudam a ler, analisar e armazenar os dados que são geradas, transformando-os em informações úteis para o manejo diário.
Veja também:
Quando essa combinação funciona bem, os ganhos aparecem. A Agricultura de Precisão ajuda a corrigir desperdícios, melhora o consumo de insumos e transforma as características variáveis de cada propriedade em decisão prática.
Artigo publicado na revista Máquinas e Mecanização Agrícola, fez um levantamento em cafezal, comparando sistemas convencional e de precisão, considerando amostragem georreferenciada do solo e aplicação de fósforo e potássio em taxa variável.
O estudo considerou três tamanhos distintos de propriedades: 22ha, 10,52 ha e 6,23 ha. O resultado mostrou que a área da propriedade interferiu na viabilidade econômica da Agricultura de Precisão.
A aplicação em taxa variável foi mais rentável nas áreas de 22 e 10,52 ha nas duas safras estudadas e na área de 6,23 ha, foi vantajosa apenas na segunda safra. Ou seja, mais um fator para ser analisado pelo produtor.
Dados conhecidos do mercado, apontam que a Agricultura de Precisão pode gerar economia de insumos em torno de 5% a 20%. Também, o aumento da produtividade fica entre 2% e 10% e o retorno sobre o investimento em projetos bem executados pode ser em até 3 safras.
Em resumo, a adesão de ferramentas de Agricultura de Precisão e de todo ecossistema ao seu redor vai depender especificamente da necessidade de cada propriedade rural. Traz benefícios? Sim! Mas a expectativa de rápido retorno precisa entender que é necessário maior investimento.

